Dona Iran Barbosa

Olá fiéis leitores deste blog de um autor não tão fiel assim, tudo belê? Feliza nonovo meuza migos!

Será que dessa vez a periodicidade de textos vai aumentar nessa latrina que eu insisto em chamar de blog? Será que esse ano vai? (Provavelmente não).

Começo de ano é sempre a mesma coisa né: contas do natal, impostos, quilos acrescentados ao perímetro abdominal e a porra toda. E aquele IPVAzinho maroto hã? E aquele golpe do IPVA mais maroto ainda hã? Janeiro é sempre lamentável mesmo.

Seguindo a linha temporal do último texto onde escrevi sobre algo peculiar de minha infância, lembrei de um outro fato de quando eu era um pequeno seru mano: eu era um tanto quanto mongolão.

De vez em quando eu não compreendia muito bem algumas frases que eram direcionadas à mim, tais como ordens de mamãe requisitando a retirada imediata dos “hominho” espalhados pela sala, vovó clamando para que eu lavasse minhas jovens mãozinhas para o almoço, ou aquelas velhas palavras de carinho quando você fazia algo que não deveria ter feito: MULEKE LAZARENTO TIRA A MÃO DAÍ Ô DIABO DO MEU ÓDIO!

Acho que devido à pouca idade, nossas sinopses cerebrais ainda estão em formação e nossos neurônios novinhos e rosados ainda não guardam uma grande biblioteca de palavras aprendidas e portanto as vezes eu não compreendia quando eu ouvia uma palavra nova. Então eu tentava achar um significado totalmente out of nowhere e o aplicava à essa nova palavra para que ela fizesse sentido e eu não ficasse em estado de catatonia, semelhante ao garçom quando te pergunta “é débito ou crédito” e você responde “sim”.

Esse cenário era muito corriqueiro pra mim pois, como toda e qualquer criança que cresceu nos anos 80/90, eu era viciado em TV. E a TV é uma grande fonte de palavras que não fazem sentido para um criança. Não que tenha mudado muito hoje em dia, pois ainda existe muita coisa sem sentido passando na televisão, basta perguntar ao Cobandante Abilton né.

Pois então, eu aprendia muitas palavras novas assistindo TV. Muitas vezes palavras que nem mesmo existiam na língua portuguesa (ou em qualquer outra língua, pensando bem agora). Lembro muito bem quando ouvi pela primeira vez a música Doce Mel, de nossa admirabilíssima Xuxa. E quando chegou a parte do refrão, esse meu cérebro mongol traduziu aquela melodia cantada em algo desse tipo:

-Doce doce doce / A vida é um doce, BILELÉU!

O que DIABOS  é um bileléu? De onde eu tirei isso? Isso não faz o menor sentido. E pior, eu passei anos cantando essa parte da música desse jeito! Teve até uma vez que eu achei que bileléu era algum tipo de doce sei lá, e pedi pra meu tio me comprar um. Ele me trouxe um sorvete.

Uma outra invenção sem sentido do meu cérebro disléxico é sobre a música de abertura do Chaves. Muitos de vocês não devem se lembrar, mas essa clássica abertura do programa com o gorrinho do Chaves girando que todos estamos acostumados a ver não existia antes. Era uma outra musiquinha e uma outra abertura. Então quando essa nova abertura estreou, minha excelente capacidade cognitiva ouviu a musiquinha dessa maneira:

-Aí vem o Chaves, Chaves, Chaves / Todos ATENTO ZOLHANDO pra tv.

Needless to say. Embora se desconsiderarmos a falta de plural e ortografia incorreta, até que não foge do sentido original.

No início dos anos 90, tivemos um grande boom de artistas latinos percorrendo nossas tvs. Entre eles bandas como Loco Mia e Gipsy Kings, vimos alguma coisa de Menudos também. Lembro de um filme chamado El Mariachi, onde tinha um mariachi (ó que surpresa!) que atirava em todo mundo e a porra toda.

Com toda essa castelhanidade rolando solta em nossas telinhas, eu já tinha entendido que em espanhol a palavra “El” era a tradução de “O”, que pertence à família Artigo Definido Masculino Singular, para os não eruditos.

Então toda vez que eu via no programa de sábado a noite o Gugu anunciar a nova canção de Elba Ramalho, eu achava que ele estava falando de algum cantor mexicano:

-Agora bem alto e bem forteee, EL BARAMALLO!

Achava que ia entrar no palco algum bigodudo de sombreiro e violão.

Outra coisa que não havia ficado claro pra mim até pelo menos o final da adolescência e é algo que me envergonha até hoje, é que minha avó sempre falava de uma certa pessoa do meio musical. Eu sempre dava de ombros quando ela falava que aquela música passando no rádio era dela. Quando meu tio chegava com seu Voyage branco em casa, e descia assoviando a melodia de uma música dessa pessoa eu também nem ligava, achava que era coisa de gente velha mesmo.

Então um dia eu resolvi dar uma atenção mais incisiva ao que muitos tios, avós e pessoas mais velhas falavam sobre como sua música era um clássico, como os artistas respeitavam essa pessoa e tal, e fui assistir um programa na TV Cultura cujo episódio era dedicado inteiramente à ela.

Eis que quando começou o programa e eu olhei para o rosto dessa pessoa, eu me surpreendo e exclamo, finalmente:

-Ah, então esse velho aí que é a tal da Dona Iran Barbosa?

Lamentável, não é?

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s